27 de jun. de 2008

Quando no Inverno se faz Verão


O sol já não é o mesmo em intensidade e luz. Os pés começam a ficar gelados e avisam que o Inverno chegou. Em dias limpos, o clima é ainda mais frio. Os chuvosos são um pouco mais quentes. O ambiente nublado e gélido nos leva ao pensamento lúgubre. Esfriam nossos sentimentos, aquecem nossas expectativas. As ruas andam vazias à noite e a sede é de vinho, a fome é de sopa. É como se tivéssemos hibernando, reservando energia para a próxima estação. Mas a imagem sombria não reflete a realidade deste importante momento. É só ver como as fotos nesta época tem uma cor especial e bonita. É a luz das idéias. Congelam minhas ações, borbulham os pensamentos.


São as idéias que florescem no inverno. Quando não há quase atividade física, a mente trabalha em dobro. É bom aproveitar este estado da nossa natureza para colher bons frutos à medida que a temperatura sobe. Não significa que estamos parados, é apenas um resfriamento das atitudes, da ousadia e da impulsividade criativa. É hora de reflexão, de um bom livro, da conversa profunda, do cinema, do futebol ou do show na tv.
Observe a atmosfera. Os pássaros cantam menos, as plantas estão se defendendo das intempéries do clima, os cães se encolhem, os insetos desaparecem, os fungos brotam. Nós mesmos falamos de forma econômica quando nos falta voz, as crianças respiram pouco e perdem a energia, os hospitais como casulos ficam lotados. O trabalho é o lazer e o lazer dá muito trabalho.
Que bom que estamos numa fria para desacelerar os atos muitas vezes mal planejados. É o momento de esfriar a cabeça ao natural. Deixar que as inovações venham à tona de forma esculpida. Sejamos compositores do nosso futuro. Vamos escolher a melhor melodia, a letra ideal, o ritmo que vamos impor, os instrumentos e os músicos que estarão conosco daqui por diante na valsa da próxima primavera e no samba do verão seguinte. Acima de tudo, a estação gelada é o maior combustível da imaginação. E é quando se tira proveito desta condição sublime, que do Inverno se faz Verão.

17 de mai. de 2008

Pé na Tábua - Ficar parado é o fim

Não estou fazendo campanha para que as pessoas corram feito loucas por aí. Jamais. Devagar e sempre respeitando as leis de trânsito. Apenas recuperei um texto que escrevi em 18 de novembro passado para reforçar minha contrariedade com os e-mails que todos nós internautas temos recebido.
Eis o texto:
18 de novembro
Pé na Tábua
Tenho recebido diversos e-mails de amigos, parentes, ou de encaminhados - aqueles que são repassados como numa rebatida de tênis. Muitos deles são iguais. E confesso que estou de saco cheio deles. São textos com piadas sobre o fracasso do Lula, do Bush, ou de frases ou idéias lindas de como viver melhor. Em resumo, idiotices óbvias do que é bom ou do que é ruim. Mas em nenhum deles vi alguém entre os remetentes, inclusive aquele primeiro remetente na série de enc: (s), falar de si.
É muito fácil generalizar as falsidades, as incompetências dos líderes, do mundo, e idolatrar Jesus, poetas e grandes pensadores. É extremamente difícil reconhecer os nossos erros ou divulgar o quê estamos fazendo para melhorar o mundo, ajudar as pessoas, praticar o bem.
Sinceramente, como cidadão e não como jornalista, eu passei me preocupar menos com o quê o Bush tá fazendo de errado, o quê o Lula fez de errado, ou o quê Deus poderá fazer por mim. Me mantenho informado, lamento os fatos ruins e vibro com as boas coisas que vejo, leio e ouço por aí. Mas não perco mais o meu tempo com estas preocupações. Elas não são tão influentes assim na minha vida como imaginava.
Minha religião não é crer em Deus, mas crer no lado bom que existe dentro de mim e na compaixão que pretendo ter a cada dia com muito esforço. A minha política é eleger minha família, meus amigos e as pessoas boas como prioridade no meu mundo, com dedicação ao lar, ao trabalho, a diversão e ao desenvolvimento da minha rua, do meu bairro, da minha cidade. E quando não concordo com alguma coisa prefiro falar pessoalmente, ou protestar na justiça, ou unir grupos para que as coisas melhorem.
É fácil encaminhar e-mails cheios de críticas a quem não está ao nosso alcance ou de bons exemplos que não praticamos no dia-a-dia. Prefiro transitar numa estrada diferente cheia de curvas, descidas e subidas, clareiras e tempestades. Não faço do meu e-mail a sombra de uma árvore à beira de uma estrada cheia de bifurcações e diversos caminhos. Prefiro escolher uma direção nesta estrada e meter o pé na tábua. A árvore é que vai mudar a cada estação se eu ficar ali parado olhando para ela.
Não. É melhor deixá-la e seguir por caminhos nunca antes transitados e levar comigo o maior número possível de pessoas bem intencionadas. E que os erros dos outros jamais sejam motivo para eu justificar a minha mediocridade. E que a virtude dos outros também não seja um exemplo apenas para eu encaminhar por mensagem via internet. Pé na tábua!

31 de mar. de 2008

O futuro presidente do Brasil, quem será?

O Brasil, desde que voltou a escolher um presidente, ainda não aprendeu a conviver com a democracia plenamente. De 1964 até 1989, gerações inteiras de pais e filhos; professores e alunos, patrões e empregados; empresas e trabalhadores; governos e governados, se acostumaram com a política da ditadura. Não havia um instrumento democrático de mudança. Apenas atravéas da arte, das instituições de ensino e dos meios de comunicação eram capazes de difundir alguma idéia e mesmo assim era censurados. De lá para cá, a liberdade de expressão e o voto direto do vereador ao presidente, mudaram a perspectiva e só agora os primeiros resultados começam a aparecer. Mas ainda falta muita coisa.
O primeiro exemplo foi um péssimo exemplo de escolha. O País foi atrás da campanha de marketing, até então desconhecida nestes moldes, e elegeu Fernando Collor. Um fenômeno cercado de showmícios, programa de rádio e TV qualificado e um perfil definido com base em pesquisas da estratégia do então PRN. O Caçador de Marajás era jovem, elegante, não tinha ligação a qualquer partido tradicional, venceu Lula, do PT, no segundo turno, e escapou de um duelo com Leonel Brizola do PDT por uma diferença de 455 mil votos pró Lula. Na verdade, Collor já havia sido prefeito biônico de Maceió e era da antiga Arena, ou seja: um legítimo representante da ditadura fantasiado de democrata, contra a corrupção e que prometia acabar com os altos índices de inflação.
Naquele momento, o ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, era o mais preparado de todos os candidatos da oposição à ditadura e fora do eixo PMDB - de onde surgiu também o PSDB - que já havia colocado Tancredo Neves no poder e porque morreu antes da posse foi substituído por José Sarney, um presidente que desgastou a legenda naquela eleição. O nome forte do grupo era Mário Covas do PSDB, mas que dividiu os votos com Lula e Brizola e mesmo apoiando o petista em segundo turno teve seus votos transferidos para Collor.
Collor assumiu. Parecia que tínhamos um presidente americano no Brasil. Brasília virou Washington,a casa da Dinda uma Disneylândia. Tudo era show, era espetáculo, não faltaram as risadinhas a cada discurso. Mas o tempo mostrou que o Plano Collor não vingou e o escândalo PC Farias - tesoureiro de campanha que enriqueceu graças a influência do presidente - o levaram ao grande tombo. Era tão americana a trama que parecia um filme hollywoodiano porque foi o próprio irmão Pedro Collor que denunciou tudo e depois morreu de câncer e PC Farias foi assassinado. O Brasil deu um contra golpe e exigiu o impeachament de Collor e ganhou o até então desconhecido Itamar Franco como presidente. Hoje, Collor é senador pelo PTB, eleito após oito anos de cassação dos direitos políticos. Covas, Brizola, até o Enéas que viviam batendo em Collor estão mortos. Sobraram Fernando Henrique e Lula, os presidentes dos anos seguintes, além de Paulo Maluf e Afif Domingues.
FHC teve dois mandatos à presidência (1995-2002), superando Lula, Brizola. Assim como Collor fugia dos debates na televisão porque as pesquisas eleitorais apontavam seu favoritismo. Veio do PMDB, antigo MDB e quando acusou o partido de arenoso, em alusão a antiga Arena, ajundou a fundar o PSDB em 1987. Ex-ministro da Fazenda do governo Itamar, implementou uma nova política econômica com o Plano Real, o suficiente para ganhar fôlego e oito anos de mandato. Do fracasso econômico e político com Collor, o País teve um presidente que trouxe resutados positivos e crescimento, mesmo ligado os partidos que sempre estiveram à frente do poder: PFL, PPB (hoje PP e ex-PDS), PTB (não mais o antigo partido de Getúlio Vargas, dos trabalhistas que migraram para o PDT de Brizola), além do PMDB que sempre teve força no Congresso Nacional a partir da Constituinte de 1988. Mas o País queria mais, um novo presidente, diferente, que fosse oposição à ditadura e aos que vieram após dela.
Lula, derrotado por Collor e FHC, amadureceu. Tornou-se um híbrido dele mesmo e de todos os grandes líderes nacionais dos ultimos 20 anos, seja os ruis, os mais ou menos ou os bons. De Ulysses Guimarães, o presidente do Congresso Nacional, da Assembléia Constituinte de 88 e líder da Campanha das Diretas Já, herdou a capacidade de relacionamento com os opostos. Almoça com Hugo Chavez, janta com Gerge W. Bush como tomava café com Antônio Carlos Magalhães e se fosse preciso chimarrão com Leonel Brizola. De Collor, herdou o marketing político: cada frase, cada palavra, cada passo, tem uma estratégia para a mídia. O carisma do povo brasileiro é fiel como tinham os seguidores de Brizola. A franqueza das palavras lembram os bons tempos de Mário Covas. A política econômica é espelhada no Plano Real de FHC e os aliados são quase os mesmos, a exceção é o PSDB que perdeu as duas eleições para Lula, primeiro com José Serra e depois com Geraldo Alckmin.
O Lula nordestino, ex-líder sindical, torneiro mecânico, que perdeu um dedo mínimo da mão esquerda, não deixou de ser ele mesmo no discurso da política para o trabalhador, para o pobre, contra a fome, por melhores salários. Conseguiu grandes avanços neste sentido. A moeda brasileira está forte, o País é apontado como emergente juntamente com a Rússia, a Índia e a China. O chamado BRIC (sigla que reúne estes quatro países) caminha para superar potências mundias e estar entre as 10 maiores do planeta nos próximos anos. Entretanto, ainda existe uma péssima herança da política no Brasil que nem o velho Lula - barrigudo e rebelde - tampouco o novo Lula - plastificado e tranqüilo - conseguiu mudar.
O Brasil ainda é uma tragédia social. Segue com uma política de saúde vergonhosa - seja na questão dos hospitais, no atendimento em postos de saúde, na falta de estrutura e na questão sanitária. As doenças - vide a dengue -, a sujeira, e a precariedade do atendimento às pessoas pobres precisa melhorar. O PAC - Programa de Aceleração do Crescimento - promete obras e investimentos. Só os sistemas de transporte frágeis, que inundam as estradas matando centenas de pessoas por semana, são um exemplo da falta de insvestimento em estrutura básica.
Apesar da melhora dos índices econômicos, estão nas ruas a fome, a miséria, a doença, a sujeira, a pobreza da estrutura das cidades. Quem conhece um País rico, nota de primeira, na volta ao Brasil o quê são as nossas ruas, calçadas, prédios, terrenos baldios, vilas, favelas, veículos, obras, bares, restaurantes e banheiros. Noventa por cento do que enxergamos é pobre, é sujo. E a violência está por toda parte. Menores assassinos, bandidos soltos, tráfico de drogas, assaltos, roubos de carro, seqüestros que causam pânico a ricos e também a pobres que morrem até por causa de R$ 20,00 no bolso. Sem falar da prostituição infantil entre outras mazelas.
O Brasil segue sendo um País corrupto. Lula pode ter afastado do governo quem quer que seja, mas não sairá zerado sob este aspecto. O esquema do Mensalão com 40 pessoas indiciadas e os demais esquemas que se alastram pelo País em governos estaduais e municipais refletem a impunidade do País. A justiça brasileira é branda, lenta e também é corrupta. Parece que o DNA do brasileiro possui uma herança doentia, onde levar vantagem não é roubar, favorecer o ilegal não é irregular, não ser assaltante mas desviar dinheiro público não é coisa de bandido.
O Brasil caminha para o progresso, mas em desordem contrariando o lema da Bandeira Nacional: Ordem e progresso. Mantida a democracia, cabe agora saber escolher o novo presidente e melhores governadores, prefeitos e representantes do Congresso nacional e dos legislativos municipais. Lula é o grande favorito em qualquer eleição, mas não terá por lei um terceiro mandato.
O presidente indicará um sucessor do partido, Dilma Russeff, a mais cotada. O PSDB ou aposta em José Serra, líder das pesquisas até aqui ou em Aécio Neves, governador mineiro de grande sucesso junto aos mineiros. O PSB tem Ciro Gomes, o PMDB parece disposto a seguir seu novo papel: flutuar em todos os ministérios e secretarias de todos os governos a ter candidato próprio. O PDT, depois da morte de Brizola, enfraqueceu e pode repetir Cristovam Buarque numa chapa. O DEM quer se lançar como um partido diferente do PFL que também negociava cargos, mas ainda não amadureceu um nome.
Heloísa Helena, como disse Brizola, é o sol nascente quando ele era o poente, no sentido de oposição a Lula. O PSOL é a oposição ao governo Lula. Diferente do PSDB que é o principal adversário. PSDB x PT é como a disputa de um clássico do futebol entre Cruzeiro x Atlético-MG, Grêmio x Internacional; Flamengo x Vasco; Corinthians x Palmeiras, na qual os técnicos usam o mesmo esquema tático, só mudam as cores e os jogadores. PT e PSDB são rivais políticos, mas jogam parecidos. Tanto que se Aécio Neves ficar de fora da eleição pelo PSDB e José Serra for o candidato do PSDB, não há como descartar que Aécio troque de partido e seja o candidato de Lula à presidência. O PSDB não quer terceiro mandado para Lula, mas FHC inventou a reeleição para se reeleger.
Quem será o novo presidente do Brasil? Façam suas apostas. A educação, a segurança pública, a saúde, e a manutenção da política economica desde o Real devem estar no discurso do novo líder nacional. O vencedor será aquele apontado ou apoiado por Lula x o candidato do PSDB? Teremos uma mulher no poder: Heloísa Helena x Dilma Russeff? Serra ou Aécio x Ciro? Ou Serra x Aécio com PT? O Data Folha fez uma série de simulações. Vote na enquete desta página. Discuta, dê a sua opinião. Se os partidos ainda se mistura, os candidatos trocam de legenda como trocam de camisa, é hora de trocar idéias. Pensar num futuro próximo que pode ser tão trágico como foi Collor, nem tão ruim assim como foi com Fernando Henrique Cardoso, um pouco melhor com Lula ou ainda mais promissor. As cartas estão na mesa.

3 de mar. de 2008

Porto Alegre rumo aos 2 BI

Somos hoje pouco mais de 1 milhão e meio de habitantes. Décima cidade mais populosa do Brasil. Em 1821, a população era de doze mil habitantes. Em 35, com a revolução Farroupilha a cidade se cerca, exige proteção às invasões. A cidade se liberta para o desenvolvimento, dez anos depois, quando caem as muralhas que a cercavam. É neste momento que se juntam à origem açoriana alemães e italianos. Em 1884, um marco que caracteriza o espírito de inovação dos portoalegrenses: quatro anos antes da lei àurea, escravos são libertados. À frente de seu tempo, a Capital dos gaúchos impõe uma marca de qualidade de seu povo e de sua representatividade. Hoje, porém, o município adormeceu.
O sistema urbano moderno exige trânsito funcional, áreas de lazer, economia aquecida, três urbanos e engenharia de trânsito inteligente, limpeza exemplar e, acima de tudo, modernidade. E o quêse vê, é sombra disso. Embora, o tempo passou como um três bala, como admitir que esta cidade esteja assim tão largada. O Centro é imundo, fedido e desagradável, nada acolhedor. Viva Porto Alegre! Ou Porto Alegre, viva! Não somos nem metade do que imaginamos ser. Não temos nem um quarto do que poderiamos ter. Tampouco, apresentamos um décimo do que deveríamos realizar.
É hora de abrirmos as cortinas do nosso tempo perdido. A cidade deve olhar para o rio e a sujeira. A escuridão, a violência e a truculência administrativa devem dar lugar a competência.
O baralho está à mesa. Quem vai dar a cartada certeira? Vem aí mais uma eleição municipal. E o seu voto é importante, como o debate e a cobrança. Não olhe apenas, não ouça somente, não sinta tampouco. Pense. Escolha aquele que tenha um plano estratégico com metas definidas que sejam realistas e inteligentes. O PT da deputada Federal Maria do Rosário e do ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto? Manoela d'Ávila do PCdoB, é aí Beleza? O PDT do deputado federal Vieira da Cunha que está mais para o PMDB (de novo?) do prefeito José Fogaça? O DEM do deputado Onix Lorenzon? E P-SOL de Luciana Genro, o PSDB da Governadora Yeda Crusius? o PTB de Sérgio Zambiazi? Um grande pleito, uma discussão que abre caminho para um novo desafio na Capital dos gaúchos.

14 de fev. de 2008

Planeta Luz

Os cientistas descobriram hoje um novo sistema solar, por acaso. Bem que poderia haver nele um novo planeta para que alguns de nós pudéssemos habitar nele. Até porque parece ironia que este ano de 2008 é o ano do Planeta. Mas que Planeta? A Terra queo homem destruiu? O ambiente onde vive um ser humano racional que utiliza a sua racionalidade para matar, roubar, corromper, enganar, trair, mentir e fugir. Imagine você ouvinte se fôssemos pássaros, quantos de nós usariam as asas para fugir em vez de se liberatar. Se pudéssemos ser peixes, quantos gostariam de ter a mandíbula voraz de um tubarão para estraçalhar os inimigos em vez de mergulhar em a´guas claras. Alguns seriam mosca para ouvir a conversa dos outros, baratas para invadir a casa de qualquer um ou ratos para roer o queijo alheio. Não vamos nem falar em cobras, muito menos em traíras. Mas estes animais peçonhentos ou não, vivem por instinto. Matam para comer, brigam para procriar, mordem para se defender. Nós não. Descobrimos o amor, a paz, a fraternidade, mas semeamos o ódio, a inveja, a avareza, e adubamos geração pós geração seres humanos nem racionais nem irracionais. Mas o que poderíamos definir de nuloracionais. Não há nem o raciocínio lógico, tampouco o pensamento instintivo. É algo incapaz de definirmos com palavras. De que adiantam chips, bites, memória ram, tecnologia, inteligência, ciência, combustível, pílulas e xaropes. Muitas vezes, quando alguém olha para rua e vê um homem desdentado numa carroça percorrendo as ruas de Porto Alegre sorridente, logo vem a reação. Que absurdo estas carroças na cidade? Será que aquela mesma pessoa que agora está num sofá aconchegante, num banco de couro do carro blindado, sabe que muitos destes carroceiros podem ser parentes de pessoas que morrem diariamente e não tem o direito ao sepultamento? O IML está entupido de gente que não tem dinheiro para liberar o corpo. Ou é inveja do sorriso do único dente canino daquele animal urbano? Será que a sociedade tem direito de latir com os cães vira-latas? Por quê todos os meninos das sinaleiras logo são apontados bandidos? Ninguém é ingênuo a pensar que as drogas, o crime e os assassinatos estão aí a olhos nu. Mas quem consegue hoje se despir do egoísmo que faz casais ricos de degladiarem, filhos cuspirem nos pais e professores e autoridades abusarem do poder. Assim como Noé embarcou na Arca os animais para salvar as espécies. Uma grande aeronave poderia abrir suas portas para levar aquelas espécies humanas que ainda pensam no coletivo, na família, no amor e na verdade. A caminho de um planeta Luz. Iluminado de boas idéias, nem sombra do que a humanidade construiu, nem um grão do que este terra produziu. Mas para embarcar nesta viagem ninguém compra, nem rouba, nem pede. Ganha o bilhete por merecimento. E não há cartão corporativo, de crédito, de débito, que garanta a passagem. Apertem os cintos, não foi o piloto que sumiu.

27 de set. de 2007

Tal pai, tal Filho - veja o vídeo nesta crônica

A maior verdade que eu conheço é de que onde há vida, há morte. Em vida, há uma outra certeza universal: nós somos a imagem e o comportamento de nossa própria história. Na condição de seres-vivos nos tornamos semelhantes aos nossos geradores, assim como um cão. O cachorro preto e o branco cruzam. Têm filhotes pretos, brancos, cinzas, malhados e afins. Até meio marrons, caso um avô ou um bisavô semeie geneticamente tal tom. Como seres humanos, além das orelhas de abano, dos olhos azuis e de gestos parecidos, temos outras heranças não apenas de DNA. Espelhamos o comportamento, as atitudes e as ações de quem nos cria e nos educa. Geralmente são os pais e os professores, também outros mestres das ruas. Mas resta a dúvida: o quê realmente é nosso, é meu, faz parte de mim ou o quê é minha exclusividade?
As necessidades físicas nos impõem prazeres básicos como comer e dormir. É automático. Mas nem tudo é tão simples assim. A maior busca das nossas vidas é a felicidade. Um objetivo claro, embora de caminho complexo. Eis o mistério que ronda o comportamento humano. E a base de tudo está à educação. Uma boa formação no lar, com as mínimas condições de moradia, alimentação, já é uma estrada segura. Mas devemos estar calçados em bons exemplos dentro de casa para formarmos nossa personalidade. Seja o pai, a mãe, os dois, um tio, um avô - existe uma imagem a ser seguida. E bem abrigados na escola, com bons professores, estrutura, livros e idéias, teremos um trilho vertical para o sucesso. Esta base garante boa parte de uma feliz viagem ao longo dos dias, dos meses e dos anos de nossas vidas.
O vídeo produzido pelo Child Friendly Australian mostra de forma explícita tal pai, tal filho. Nos remete a reflexão de que devemos ser pais não apenas na palavra e no afeto, mas no exemplo. Somos professores diários de nossos filhos e alunos permanentes de nós mesmos. Tome um banho e experimente olhar os próprios olhos no espelho. Esteja nu, despido também das influências do trabalho, das ruas, das obrigações.

Tente mergulhar no seu comportamento e descubra quem é você. Volte no tempo, na história de olhar fixo em si mesmo. Vai enxergar o pai, a mãe, um irmão, o melhor amigo, o chefe, o ídolo, a vizinha e o mendigo. Faça uma radiografia da própria personalidade e, talvez, terá uma grata surpresa. Ou não. A dúvida do indivíduo sobre si é o maior drama. Desvendá-la é a nossa meta. Para sermos felizes não podemos fechar os olhos, digo, cara-a-cara com a gente. A nossa missão é sermos melhores que nossos pais e professores e, acima de tudo, termos a capacidade de preparamos nossos filhos. O berço é a chave do caminho para abrirmos a porta da felicidade. Disso eu não tenho dúvida.

17 de ago. de 2007

A Tragédia do JJ 3054

Um mês após a morte de 199 pessoas no trágico acidente do avião da TAM do vôo JJ 3054 que saiu de Porto Alegre e aterrissou na patética pista de Congonhas e explodiu no choque com o prédio da própria Companhia do outro lado da Avenida, duas certezas. A primeira, mais emblemática e óbvia é que a dor das famílias das vítimas não tem cura. Só quem viveu aquele vestibular da lista dos passageiros pelo rádio, nome a nome sendo anunciado, sabe o que é uma perda como esta. Ou nem sabe dimensionar tamanho sofrimento, incalculável. A segunda, menos explícita, é de que a tragédia do cotidiano continua.
Vendo hoje as imagens do acidente, das famílias chorando, da reconstrução da televisão tentando ilustrar e encontrar uma explicação das causas do acidente - se foi ou não foi a turbina, o avião, o piloto, a falta de ranhuras, da pistas, ou é isso ou aquilo - nada me tocou mais que as lágrimas e os depoimentos das famílias, principalmente daquelas que não tiveram nem o direito ao sepultamento de seus pares. Pior que isso foi ouvir os comentários dos integrantes da
CPI do Senado e da Câmara a respeito do assunto. E mais estúpido é o novo Ministro Nelson Jobim que já se fardou de militar, colocou capacete de bombeiro e dá agora uma de Collor. Sinceramente, depois do caçador de Marajás, só o que faltava um caçador de Ananás para não dizer abacaxis do caos aéreo.
Vivemos nós num
vôo cego sem controladores do tráfego aéreo, dos juros, dos impostos, sem recolhimento de lixo, mas com recolhimento voraz de taxas e mais taxas. O que os impostos deveriam pagar nos pagamos em dobro para garantir saúde, estradas asfaltadas, ruas seguras, iluminação e até engordar o bolso dos funcionários corruptos, enquanto o programa de qualquer governo não engorda mais o bolso de ninguém. Pelo contrário, emagrece e joga crianças nas ruas como trapos, como panos de chão. E a sociedade, que não tem nem tempo para protestar, trabalha em silêncio num vôo cego.
Claro que interessam as
investigações do vôo JJ 3054, mas ali estará o detalhe do acidente. Mas na falta de controle geral da nação está o motivo geral de todos os caos que vivemos. É só caminhar pelas ruas, olhar para o chão. Vivemos entre ruas esburacadas, sujas, mergulhamos em rios e praias poluídas, respiramos um ar pesado, viajamos em estradas federais em péssimos estado de conservação. Vivemos numa falta de controle de memória. A BR-101 no trecho sul está para ser duplicada desde o primeiro mandato de FHC e Lula vai chegar ao fim do segundo mandato sem a conclusão das obras. São quase 16 anos de obra. Passaram-se quatro copas do mundo, um Pan no Brasil e ainda não temos via dupla entre Porto Alegre e Florianópolis. Sinceramente, o povo brasileiro que não vê isso é feliz porque tem esperança, o que enxerga prefere desistir e pensar só no seu umbigo para garantir o ganha pão e aqueles que são os controladores do Brasil nem decolam. Sou a favor de uma reforma política de verdade que inclua a cassação do mandato imediato de quem trocar de partido independente do período, pois existe uma prostituição partidária. E o voto não pode ser obrigatório no Brasil. Assim, só quem enxerga vai poder limpar a sujeira que nos faz derrapar na decolagem. Mas não. O voto cego é prioridade, o vôo cego é a nossa ideologia. Viver historicamente escolhendo os pilotos que não conseguem decolar.

26 de mar. de 2007

As cascas, os caroços e os sucos da vida

Hoje lembrei Carlos Drummond de Andrade. "Havia uma pedra no meio do caminho". Lembrei meu pai. "Uma cidade pequena é uma laranja suculenta com miolo de pedra e uma cidade grande é uma laranja com casca de pedra e miolo suculento". Lembrei de mim mesmo. Não gosto de pedra no meio do caminho. Mudei. Depois de 13 anos em Florianópolis, estou de volta a Porto Alegre. O mar virou rio, o pão de trigo é de novo cassetinho, o ladrão aqui é bandido, o trânsito é EPTC e o peixe agora é churrasco. Não bastassem as diferenças, troquei o caroço pela casca de pedra e sigo sem o suco essencial da fruta, da vida. Mas pedra por pedra, mudei pra melhor.
Entre a Ilha de Santa Catarina e o Paralelo 30 não são somente os
quilômetros de distância, digo a separação. Existe uma imensidão de diferenças e tomo elas como aliadas do meu enriquecimento espiritual. Comecei a descascar esta Porto Alegre que se pôs ainda mais imponente. Logo senti a muralha rochosa rachar e as entranhas da cidade se abrirem para mim. Estou de volta onde nasci, mais forte e diante de um desafio bem maior.
Meu caminho é onde minha curiosidade - a raiz da inspiração - me leva, sejam em lágrimas, em sopros, em palavras, desenhos ou em pensamentos. Não lembro a primeira vez que passei a registrar minhas memórias, mas sempre foram inquietações, mesmo criança. Jamais fugi das fortes emoções. São elas as fontes das mais lindas canções, histórias e acontecimentos. Embora as cascas e os caroços que azedam este suco e as pedras que estragam a fruta, virei a esquina. Pisei no paralelepípedo e ouvi Mário
Quintana: "Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão." E confesso: sinto sede de viver.